Agora, a Fafá. E só vou escrever mais quando eles forem embora. Porque Fafá e Nandão estão aqui neste fim de semana. Fazendo uma viagem para comemorar dez anos de casamento, 22 de abril de 2008, e 15 de namoro. E eles foram os meus primeiros afilhados de casamento. O presente quem ganhou fui eu. E, se você não acreditava em milagres repetidos, eles estão hospedados na mesma rua que eu. E a rua é micro. São meus vizinhos de muro. Sem saber. Juro.
domingo, 7 de setembro de 2008
PEQUENOS MILAGRES
Agora, a Fafá. E só vou escrever mais quando eles forem embora. Porque Fafá e Nandão estão aqui neste fim de semana. Fazendo uma viagem para comemorar dez anos de casamento, 22 de abril de 2008, e 15 de namoro. E eles foram os meus primeiros afilhados de casamento. O presente quem ganhou fui eu. E, se você não acreditava em milagres repetidos, eles estão hospedados na mesma rua que eu. E a rua é micro. São meus vizinhos de muro. Sem saber. Juro.
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
PESSOAS II
Muitas pessoas passam por mim em Firenze. Algumas vão sem quase serem notadas. Outras, agarro pra mim. Sobre algumas eu já falei. Sobre outras, falarei agora. Algumas já passaram e já foram embora. Outras ainda estão aqui. E todas valem a pena por alguma razão. Gente sempre vale a pena por uma ou outra razão.ALUIZIO
Um dia cheguei no albergo onde eu morava e o italiano grosso que vem a ser o dono do lugar - e que eu pensei que fosse uma exceção entre todos esses italianos loucos e grosseiros - resolveu que eu deveria pagar o dobro do que pagava nos primeiros dois meses. Desse jeito. Do nada, out of the blue, subito. Porque setembro é assim, ele disse. Não importava se eu morava lá fazia dois meses, se já tinha levado um monte de amigos e até desconhecidos a se hospedarem lá, se eu tinha sido sempre simpática e educada e se tinha até dado presentinhos pros filhos dele. Nada importava nem para me dar a chance do diálogo. Ele resolveu que era aquilo e me comunicou. Pois eu resolvi que me mudaria de lá imediatamente e me mudei. No mesmo dia. Atravessei a rua e achei lugar no Desire. Nada podia ter sido melhor. Meu hotelzinho novo é muito mais charmoso e aconchegante, ganhei um frigobar incrível para gelar minha água nesse calor do cão, e, de quebra, ganhei o Aluizio, o amigo mais legal - e leal - da cidade. "Diz-que" ele é de Recife, mora aqui em Firenze há 13 anos, trabalha neste hotel há 10, tem me ajudado com o italiano e me faz rir todo dia - o que faz um bem danado, principalmente nos dias de saudade! Em uma semana, o Aluizio já disse algumas das expressões mais engraçadas que ouvi na vida: 1-"Baixou a piniqueira" (de penico mesmo), para quando você faz aquela faxina CAPRICHADA, passa o dia limpando a casa, o quarto, as coisas todas, faz compras no super, arruma tudo bem arrumadinho, do jeito que meu pai gosta. 2-"Vai dar a Elza", ou algo do tipo: essa ele disse quando duas meninas iam levando os copos de um bar embora, andando pela rua, como se nada estivesse acontecendo. Parece que ele conhecia uma Elza que nunca saía de casa para lugar nenhum, mas sempre pedia pros amigos levarem coisas pra ela. E o povo levava. Então "dar a Elza" é quando você sai dos lugares levando as coisas... também vale pra docinho em festa de criança e pra bem-casado: "vou levar pra Elza" (eu sempre dizia que era pra minha vó!). Mega golpe. 3-Uma das melhores, até pra mim que amo criancinhas: "meu momento Herodes", quando ele contou que não estava mais su-por-tan-do os filhos de uns amigos correndo e gritando pra lá e pra cá durante o jantar. Ele é MUITO engraçado. Simpático e gentil SEMPRE. Ainda mantém um sotaquezinho bom de pernambucano e me lembra a Margarida, claro. O Aluizio alegra minhas tardes de setembro.STEPHANIE
Bom, a Stephanie é a minha melhor companhia. Paulistana do Itaim "básica", 19 anos, estudou no Dante, chegou em Firenze em junho e vai passar pelo menos quatro anos aqui estudando moda na universidade. A irmã dela, a Fernanda, mora aqui há mais de dez anos, é casada com um italiano e tem dois filhos fofos, o Giorgio e a Isabella - que me fazem morrer de saudade da Sofia porque falam português com sotaque, como ela. Logo que chegou a Firenze, a Stephanie começou a trabalhar num restaurante na praça do Mercato Centrale e, de cara, já surpreendeu a família inteira, que não sabia que a filha mais nova era tão esperta, disposta e capaz de trabalhar bem e se virar sozinha (filhas mais novas sempre enfrentam essa sina, eu sei bem). Um dia, logo que eu cheguei, passava lá na frente do restaurante e ela me chamou: Ciao! Ciao. Você é brasielira, né? Sou. Ficamos amigas e não nos largamos mais. Ela me traz todas as boas recordações de quando fui estudar em Boston com 17 anos, em 1992. E eu aprendo muito com ela, que é uma das pessoas mais flexíveis e bacanas que se pode encontrar. Está sempre sorrindo. Até trabalhando. Sempre tranqüilona e sorridente. Tem cabelos e dentes que brilham - e olhos verdes que brilham mais ainda! E está sempre emperequetada. De um jeito que SÓ ELA pode fazer. Se eu usasse metade dos dourados que ela usa, dos anéis, das pulseiras, dos colares, dos brincos enormes, dos vestidões estampados, da maquiagem, do rímel e do rosa nas unhas, eu seria uma árvore de natal ambulante. Mas ela fica linda, elegante, simpática e estilosa. Aparece cada dia com uma coisinha nova, um detalhe diferente e cuidadosamente escolhido. E sempre bacana e interessante. A companhia dela é sempre boa, pra tudo. A gente já tenta brigar um pouquinho de vez em quando, como irmã mais velha e irmã mais nova (como ela briga às vezes com a Fê), mas até nessas horas ela fica sorrindo - e então quem consegue brigar? Eu não consigo. Graças a Deus.ELVANA
É albanesa. Trabalha há seis anos no Vecchio Mercato - o mesmo restaurante da Stephanie. Ela vai trabalhar sempre de motorino, mas o médico mandou ir de bike para exercitar as pernas, É hostess e eu gosto dela, mas a Stephanie começou a detestá-la. Aliás, os albaneses são absolutamente odiados em Firenze. Há milhares deles trabalhando por aqui. E são estranhos mesmo. A Elvana, entre idas e vindas, mora na Itália há 16 anos. Tem 27. E tem um filho de 6, lindo, fofo e bem inteligente: o Cristian. O pai dele é italiano, mas ela não gosta de falar nisso - provavelmente ele a traiu e foi embora com a outra. Eu acho que nenhum italiano fica, de fato, com uma albanesa - pelo menos não em Firenze. Se bem que eu já soube que o dono do restaurante trocou a esposa por uma dessas mulheres do país que começa com A (falamos assim para que eles não nos entendam. Meu Deus, somos maus!). Um dia a Elvana me convidou pra comer uma pizza com ela e com o filho, para eu conhecê-lo. Foi gentil da parte dela, mas foi tudo muito estranho. Foi, assim, um evento meio formal. Tudo muito estranho. Os não-brasieliros, juro, são todos muito estranhos. A Elvana faz faculdade de Economia - não sei pra quê porque ela não pretende trabalhar com isso - e trouxe os pais da Albania para cuidarem do filho enquanto ela trabalha. Não deve ser fácil a vida dela. Mas é impossível desenvolver uma amizade. A gente tentou. Mas realmente tem ali qualquer coisa que não vá bene. Não é preconceito: albaneses são definitivamente estranhos. Mas quando ela anda de motorino parece uma itliana como outra qualquer.ELISA
A Elisa, sim, é uma ragazza típica, fiorentina total. Em vez de COSA, diz RÔSA. Porque os fiorentinos dizem o C com som de R. Secondo me é SERRÓNDO me. É som de RR, mas não aquele de vó. É o nosso normal, de rosa, roxo, cachorro. E eles falam tão rápido com os "RR"s no lugar dos "C"s que só Deus ajuda a entender. A Elisa fala fala fala, rápida e atropeladamente, e eu sorrio como se entendesse tudo. Mas, é duro, não entendo nem metade. E ela ainda tem a língua presa. Mas tenho vergonha de dizer pra ela que não capisco. Então vou reagindo como se entendesse tutto. Por isso ela pensa que sei muito mais sobre a vida dela do que realmente sei. Sei que tem um metro e meio de altura, uns 45 kilos e menos de 20 anos. Quando sorri, espreme os olhos e é uma das poucas italianas que tem dentes (de leite!) bonitos (falarei sobre isso em outro momento, mas os dentes desse povo são inacreditavelmente mal cuidados). Elisa trabalha no Zazá, outro restaurante ali na Piazza do Mercato. Ela sempre me ajuda a escolher o que pedir, e eu adoro - porque me tornei a pessoa mais indecisa do mundo! Um dia ela estava bem tristinha e eu inventei de perguntar por quê. Começou a chorar e me disse que o namorado tinha batido nela. Eu não podia imaginar como aquilo seria possível porque se um homem der um tapa naquela menina, ela voa longe e se quebra inteira. Mas aí ela me explicou melhor: ele me bateu com palavras e me machucou muito. Ai, foi de uma doçura que eu não sabia se ria ou chorava com ela. No outro dia, ele deixou um bilhete lindo e rosas vermelhas no motorino dela e ficou tudo bem. E isso é tudo que sei sobre a Elisa.JESSICA
Ela também é super fiorentina. Também troca o C pelo R. Também tem 19 anos - ou 17, esqueci -, e também anda de motorino. (Motorino é a Vespa - o transporte de 90% da população fiorentina) O da Jessica é rosa. Tudo dela é meio rosa. O motorino, o capacete e as bochechas do namorado, o Nicolá. Ela trabalha no albergo onde morei em julho e agosto. Me tratava como una sorela. Me fazia café todas as manhãs e separava comida pra eu levar pra aula quando saía atrasada e não tinha tempo pra fazer colazzione. Estuda qualquer coisa ligada a hotelaria e trabalha no hotel nas férias para ir aprendendo. Mas vive reclamando do chefe - que é o tal italiano estúpido que resolveu me cobrar mais do dia pra noite. A Jessica ficou arrasada quando eu me mudei. Mas nunca apareceu pra me visitar. E é só atravessar a rua. Os italianos são assim: você até pensa que eles se apegaram a você, mas não. Eles não criam laços com estranhos. Muito estranho.SPERANZA
Tem uns 60 anos, é uma das 927 albanesas que habitam cada quarteirão de Firenze, e limpa os quartos do meu antigo hotel. É uma figura, figura, figura. Não perde a chance de fazer a velha piada e diz que será a última a morrer. Adora receber elogios e vive repetindo que é brava, bravíssima! Desde o primeiro dia ficou cheia de amores comigo: bambina mia, mi amore, mi amica, mia Giuliana, pícola, picolina mia. Até chorou quando eu ia saindo com as malas. Mas eu vou ali pro outro lado da rua, Spressa (o nome em albanês), ainda vamos nos ver. Mas não é a mesma coisa, ela disse. E eu gostava de arrumar o quarto pra você. Ela adora se mostrar linda e jovem. Super se arruma depois de trabalhar na limpeza das stanzas o dia inteiro. E vive contando dos homens que mexem com ela quando ela passa toda arrumada pela rua. É vaidosa no nível máximo. Me mostrou dúzias de fotos do filho e da filha (que tem umas fotos de "modelo e manequim" hor-ro-ro-sas, coitada). Me pediu pra ensiná-la inglês porque o filho namora uma americana e precisa falar com a mãe dela. E com os hóspedes. Ensinei um pouco. Foi engraçado. E sobre o marido ela diz que ele era lindo, de cinema. Hoje é bem barrigudo e feio que dói. Segundo ela, devia ter dito NÃO pra ele, ficado solteira, e se tornado uma atriz famosa. "Porque, na verdade, era esse o meu destino. Mas eu escolhi errado: casei. Agora já foi. Estou aqui limpando banheiros" - e encheu os olhos de lágrimas. A vida è così, Spressa, è così - eu disse. Que que eu podia dizer? Respondo a mesma coisa pra mim, às vezes. È così, È così.
MANOLA
Minha professora do nível quatro. Não tem igual. Dá aulas nessa escola há 16 anos. Mas é laureada em russo e lá nos anos de ragazza trabalhou como intérprete para uns caras levemente perigosos. Na sexta passada ela levou a filha pra nossa aula porque não tinha com quem deixar. São italianas italianas italianas. Manola fala com as mãos, é super palhaça e cheia de caretas e interjeições. Dá até uma aula da língua dos gestos dos italianos. É de chorar de rir. O melhor dos gestos, secondo me, é passar as duas mãos como se alisasse uma barba comprida dividida em duas partes, do queixo para baixo. Duas pontas muito compridas de uma barbicha partida ao meio. Alisa bem alisada, do queijo até quase o pé, com as duas mãos ao mesmo tempo, paralelas, uma em cada parte da barba. E significa que a coisa está molto, molto, molto tediosa... INSOPORTABLE! Quando, por exemplo, alguém está te contando uma história que não acaba nunca mais, você pega e começa alisaaaar a barba, e alisa, e alisa... Além dos gestos, a Manola diz que os italianos, principalmente os maridos italianos, são as pessoas mais dramáticas da face da terra. Secondo ela, com 36,5 de febre, eles vêm se arrastando e dizendo que estão à beira da morte, com as mãos na cabeça como quem arranca os cabelos, e juram que precisam ir urgente ao hospital. E não sabem fazer nada sem a mulher. Mas o brasileiro não é assim também? E, a melhor: Manola contou que dá aulas privadas para estudantes que, às vezes, demoram tanto pra ler um texto que ela doooorme na mesa. De olho aberto pro estudante não notar!!!!
STEFANO
Meu professor do nível três. Ele é pintor. E acha Firenze uma velharia. Diz que está tudo caindo aos pedaços, que é tudo velho demais e ultrapassado. Inclusive os italianos. Detesta. Mora aqui porque sempre morou. Mas detesta. É muito tranquilão, divertido e ensina bem demais. Usa sempre adjetivos interessantes e bem pronunciados quando vai nos passar uma lição ou uma tarefa. Vejam este FANTÁSTICO exercício. Vamos fazer um STUPENDO escrito. Façam esta MARAVILHOSA leitura. Aí vai o SIMPÁTICO compiti para domani. E, entre dez palavras, diz umas quatro vezes uma das minhas expressões fiorentinas favoritas: ACCIDENTI!! - que significa NOSSA!, no sentido de Nossa Senhora mãe de Deus, Jesus, Maria, José!!!! Amo, amo, amo.
MOIRA
A Moira salvou meu primeiro mês de italiano. Ela veio substituir a primeira professora, que era uó. Tem a minha idade, exatamente. É magérrima e engraçadíssima. Mas ela não faz palhaçada, como a Manola. É engraçada por natureza. As expressões dela, que eu também adoro são MA DAI! e MAGARI! Moira é casada com um americano e eles vivem se pegando porque um fala mal do país do outro. Ele detesta morar na Itália e conviver com os italianos mal educados e ela detesta a "América" do Bush. Mas acho que se amam. Os dois dão aulas na universidade. Ela só dá aula de italiano nas férias de verão. Durante o ano ensina história da arte. Se locomove de bicicleta e um dia chegou na aula louca da vida porque roubaram a dela. Bastardos!!! Relatou como gostaria de ver esses ladrões serem assassinados e jogados no rio para todo mundo vê-los boiando pelo Arno. Adora o Brunello de Montalcino Banfi e passou a madrugada fazendo guerra de neve com o marido e os vizinhos na última vez que nevou em Firenze, depois de mil anos, em 2006, acho. Minha proff preferita.JANETE
Ai, a Janete é um sonho. Tem 63 anos, mas parece 50. É mineira e tem a melhor risada do mundo. Já falei nela, mas quero falar de novo porque ela me deu uma lição de vida esses dias. Janete veio pra cá estudar italiano em julho, só um mês, e eu tive a sorte de cair na classe dela. Foi embora antes de julho acabar. Mas a Janete veio, principalmente, atrás das suas raízes. O avô dela é de Lucca, a cidade mais fofa da Itália. E ela até chorou na classe quando disse que tinha vindo para conhecer a cidade e que tinha sido muito emocionante ir até lá. Eu chorei junto, claro. Fui lá abraçar ela e ficamos chorando enquanto a classe aplaudia. Isso também foi emocionante! Bom, a Janete foi embora e nos falamos dia desses, pelo Skype (ela é super internética!). Sempre nos falamos. Uma das filhas dela está grávida. Já tem uma turma de netos, e vem mais um. E então outro dia fizeram exames e descobriu-se que o novo netinho nascerá com a Síndrome de Down. Na primeira vez em que conversamos ela disse que ainda estavam um pouco assustados mas que iriam ficar bem. Quando nos falamos de novo, ela foi categórica: agora estou tranqüila e feliz, já entendi que isso é uma benção de Deus. Essa criança vem para preencher a minha velhice, vai ser a minha maior companhia, o meu anjo. Aí eu chorei de novo, uai. Se o neto da Janete é especial, ela é muito mais. Não é qualquer um que pensa uma coisa linda dessas. Não é qualquer um que aos 60 anos vai estudar italiano na Itália com um bando de adolescentes chatos, que se hospeda numa casa de uma senhora italiana sem nenhum conforto e que ainda vai atrás de suas origens numa cidadezinha murada. Janete Lucchesi, de Lucca, que eu tive o prazer de conhecer em Firenze, é muito especial e me deixou mil saudades.
HELENA
Nunca falei da Helena e não sei como. Ela completava o nosso trio de julho. Helena, Janete e eu. É de Porto Alegre, mas mora há anos com o marido e os filhos em Friburgo. Tem duas meninas e um menino. Todos adolescentes. O mais novo é filho adotivo. Ela e o marido resolveram adotar uma criança quando as meninas cresceram um pouquinho. História linda e um exemplo que, se fosse seguido por só metade das famílias brasileiras com condições de criar mais um, daria esperança, oportunidade, um lar e amor para milhares de crianças sem pais espalhadas pelo nosso país. Milhares de crianças que esperam. E a Helena, por si só, não espera, faz - e é um exemplo. Convivi bastante com ela, mas demorei a saber que ela tinha enfrentado e vencido a doença cujo nome a gente não gosta de dizer. Ela tem 40 e poucos anos e acho que essa coisa aconteceu há uns três ou cinco. Ela teve de fazer todos aqueles tratamentos e tirar um seio. E está aí, firme e forte, cheia de planos pra família, cheia de energia, vindo estudar um mês sozinha na itália - para matá-los de saudade. E ainda fez o curso de culinária comigo. Anotou tudinho pra fazer pro marido e pras crianças. Ela me divertia demais nas aulas de cozinha, super despojada. "Eu não vou achar esse queijo nunca em Friburgo! Naquele lugar só tem mercadinho e olhe lá! Você vai me mandar de São Paulo pelo correio." Foi uma amigona. E rimos demais juntas, ela, Janete e eu. Eu ficava entre o sotaque gaúcho dela e o mineiro da Janete e era feliz. Fui muito feliz com elas. E aprendi um monte de lições. Se eu "envelhecer" como elas serei a pessoa mais feliz do mundo! Mas o detalhe mais interessante sobre a Helena é que ela trabalha aconselhando as pessoas sobre investimentos na Bolsa de Valores. Não, você jamais poderia pensar que esse era o trabalho dela. É veramente inusitado!
Olha, tem muita gente inusitada neste mundo!
E eu sou uma felizarda por conhecer tantas dessas gentes!
Gente é pra brilhar! (disse bem o Caetano)
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domingo, 31 de agosto de 2008
OS JAPONESES E EU
Talvez por que meu pai tenha trabalhado junto com alguns deles desde que nasci eu tenha criado essa afeição pelos olhinhos puxados.
Não sei mesmo. Mas é fato. E sou muito grata por isso. Porque se aprende um bocado com eles.
A CLASSE
Há muitos japoneses em Firenze. Visitando e estudando. Neste mês, metade da minha classe é nipo. Na sexta-feira passada nossa prof pediu para fazermos uma apresentação sobre o nosso país. Eu estava sozinha. Uma colombiana também. Depois, dois venezuelanos, dois croatas e os seis japas. Eles são fofos, educados, organizados e concisos. Ultra concisos. Uma aula pra mim, que falei um monte de coisa e não disse nada - e não foi porque o Brasil é gigante só, foi também porque não tenho o senso de organização oriental. E já piorei, convivendo com o caos italiano.
O PIC NIC
Tá certo que eu não fiz muitos pic nics na vida, mas, entre os que fiz, este foi de longe o mais legal, o mais animado, divertido e indimenticable.
Shiauassê! (tô feliz!)
Talvez este pic nic não tenha sido diferente de qualquer outro. Mesmo assim, foi diferente e especial. Porque eles são especiais demais. Sempre gentis, educados, companheiros e particulares.
A quantidade e a variedade de comida era inacreditável! Os japas sabem fazer pic nic!! Coisas preparadas, coisas compradas, receitas inventadas pra gente provar, tudo. Nem sei direito o que eu comi, mas era tudo bom.
E, fora a comida, pic nic de olho puxado é uma diversão. Eles adoram jogar volei. Eu também não sabia. Mas eles adoram. O mais divertido são os gritinhos – em japonês – durante o jogo: ôôôô, no-no-no-no, hhhaaaiii!!, ú-ú-ú, gambááátê!! Eu me jogava no chão - não pra pegar a bola, mas de rir!
Além do volei, teve o momento "jogo de desenhar" - que tem um nome em japonês, mas esqueci. Neste lugar onde fomos há uma estátua gigante, gigantesca, de um homem muito barbudo, velho, sentado de um jeito meio misterioso, olhando pra baixo, talvez pegando alguma coisa, não se sabe. Não se sabe ao certo quem ele é nem o que está fazendo. Tem gente que diz que á representação de Deus olhando com uma certa tristeza o que fizemos com o planeta… Mas pode ser o que você quiser. Bom, mas aí a brincadeira era cada um desenhar a sua versão do velhinho. E todos vêm, e participam. Meu desenho ficou um horror, mas foi engraçado.
E então a Shinobu anuncia que é hora da “bíla”. Ela quer dizer birra, cerveja. Será aberta a sessão da bebedeira. Santo Deus, os japoneses bebem muito!! Foram comprar bila no restaurantezinho. Depois teve champagne, vinho tinto e, pra finalizar, limoncelo. Pra finalizar nada! Eu que pensei errado! Porque depois eles ainda foram para um Irish Pub e passaram a noite lá bebendo mais. É impressionante como eles bebem. E a energia não sei de onde vem.
Mas o mais legal do pic nic foi a mensagem na garrafa. Parece que é uma tradição japonesa de pic nics. Todo mundo escreve numa folha alguma coisa para ser lida daqui a cinco anos. E então a gente põe a folha numa garrafa e enterra lá num lugar marcado – pra ser desenterrada por nós mesmos daqui a cinco anos. Não é brincadeira. Eles levam super a sério e foi demais fazer parte disso. Todos pensaram bastante no que escrever e escreveram com o maior cuidado. Inclusive eu. Alguns escreveram em japonês, outros em italiano. E, no final, eles foram lembrando dos amigos que não estavam no pic nic e foram pondo todo mundo no papel: Haruki dove?? Taka dove?? Yuki dove?? Depois colocamos a mensagem na garrafa, achamos o lugar para enterrá-la (dentro da árvore) e cada um jogou um pouco de terra pra tapar o buraco. Parecia filme. E entre os japas não tem nenhum chato que não participa – como normalmente entre nós, ocidentais bobos, acontece. Sempre têm aquele que acha a coisa sem graça e fica de ladinho… Acho que sou japonesa. Ou fui.
O bar e os beijos
Depois de tudo isso - do meio-dia às nove da noite no pic nic - pegamos o ônibus de volta, meia hora, chegamos. E você pensa que eles deram ciao e foram para suas casinhas? Não, não, não, Irish Pub? Irish Pub si-si-si. Eu fui junto porque era muito pertinho, mas estava morta. Chegando lá, sem cerimônia, cada um pediu um balde de bila ou de umas bebidas diferentes que eu nem conheço, e só estavam começando.
E então, no domingo, a saga oriental continuou. Shinobu me levou pra comer Temaki na casa de uma coreana. Mas a gente que fazia o temaki, diversão de novo. Pena que no fim a coreana me fez experimentar uma coisa da cozinha típica dela que quase me matou. Era tipo acelga ou coisa que o valha com uma pimenta que deixa a malagueta no chinelinho. Arigatô, amicá. Acabou com o gostinho de camarão com cream cheese que estava me fazendo tão feliz. (rima sem querer)
Depois do Temaki, como não podia deixar de ser, Shinobu foi encontrar os mesmos japas do pic nic pra beber. Juro. Juro. Juro. Eles bebem TODOS os dias. Eu fui junto porque só vendo pra crer. E era verdade. Estavam todos lá no bar. Drinks, prosecco, vinho. E aí? Vamos pra outro bar? Ah, vão vocês. Sayonará. Má tá né!
(Na segunda-feira, chegam todos de ressaca na aula. E na terça também, e na quarta. Quando conseguem acordar... Juro. Os japoneses em Firenze são assim.)
sábado, 30 de agosto de 2008
REPARANDO BEM...
domingo, 24 de agosto de 2008
A GENTE SE ACOSTUMA
Pois agora lá estou eu, dias e dias, sentada na escadaria do Duomo, conversando em frente à Santa Croce, passando de bici aos pés das estátuas imensas da praça... como se nada estivesse acontecendo. Tudo aquilo está lá e eu me acostumei. Às vezes passo e nem noto. Passo lá tantas vezes que nem sempre dá tempo de olhar. E a vida é assim mesmo.
A gente se acostuma com tudo.
Para poupar a vida?
Será que não devia?
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segunda-feira, 18 de agosto de 2008
VENEZA, CROÁCIA, TRENS E CRACÓVIAS... ou OI??.NÃO ERA AQUI?
FOTOS DE VENEZA
(É preciso registrar que elas são obcecadas por validar os bilhetes de trem - inclusive nos lugares onde não precisa e onde ninguém sabe o que vem a ser isso, como na Croácia. Mas essa história eu conto depois.)
Era véspera de Ferragosto, dia 15.08, sexta-feira, o feriado mais importante da Itália (sabe-Deus-por-quê). Eu pensava seriamente em ir a Roma encontrar o Ferdinand, que terminaria exatamente no dia 15 a peregrinação pela Toscana. Mas eu estava com muita preguiça, confesso, de voltar para aquela cidade abarrotada de turistas e com chuva.
Aí, por acaso, cruzei com a Aline na escada da escola e ela me disse que ia passar o dia, sexta-ferragosto, em Veneza. Hm. Eu havia relutado todo esse tempo para não ir sozinha pra cidade com fama de ser a mais romântica do mundo. Definitivamente eu não queria ir sozinha. Mas, então, cá estava eu em Firenze, na noite de uma quinta-feira estranha, sabendo que os próximos dias na cidade seriam vazios, tristes e solitários porque todo mundo viaja nesse feriado... Então, va bene, achei por bem mudar de idéia: andiamo a Venezia!
OI? NÃO ERA AQUI?
O trem saía às 7h. Perdemos. Porque não saía da estação principal, onde a gente estava. Sim, lembre-se disso ao viajar de trem pela Europa: mesmo se você pensar que o trem sai dali, do lugar onde você comprou o bilhete, porque ninguém te disse nada diferente disso, pergunte, e pergunte de novo, e pergunte mais uma vez pra confirmar. Ainda mais se for na Itália. Porque aqui ninguém te informa nada e, se informa, MUITAS vezes a informação está errada.
Bom, pegamos o próximo trem, uma hora depois, e a viagem já começou, digamos, divertida - e cheeeeia de emoção.
Os lugares da gente não eram exatamente juntos. Aproveitamos que algumas das nossas poltronas estavam ocupadas e fomos sentar juntas em outro canto. Obviamente as pessoas foram chegando e foi dando confusão, já que uns estavam nos lugares dos outros. Não só nós. Em todo o trem tinha gente trocada. Mas o povo ia se virando. Sem stress.
Até que uma americana histérica, ruiva, feia, chata e mal-amada, veio nos tirar do lugar dela e do marido cafona. Explicamos que a gente não queria fazer uma família com crianças se mudar do nosso lugar... se ela não podia, por favor, fazer a gentileza de procurar outras cadeiras vazias. Mas ela disse NÃO e perguntou, bem grossa, por que a gente não tirava quem estava in our places. Respondemos com o resumo do que os americanos definitivamente não são: BECAUSE WE ARE NICE. (e porque queríamos sentar juntas, oras!! o resto era lábia de brasileiro, sejamos honestas. mas a nega era chata!)
Saímos do lugar dela falando um monte de bobagem em inglês, pra ela entender o quanto estava sendo not nice. E aí, eu te pergunto: tinha lugar pra gente sentar? Claro que não. Andamos o trem inteiro sorrindo, rindo, falando, e fomos a atração da população européia e sem graça que ocupava todas as poltronas do Eurostar-Firenze-Venezia. Aliás, fomos a atração por onde passamos nas próximas 72 horas. Ser brasileira é realmente particular e diferente de tudo. Somos incrríveis!
Oi?? Não era aqui??
Porque, depois de tudo, pensamos, afinal, por que a gente não se fez de besta com a americana? Todo mundo faz isso. Faz coisa errada e aí usa a desculpa de que não entende nada, fica falando a própria língua, dá de ombros, faz aquela cara de "oi?? não era aqui? hãn?? ah, no no, no falo italiano, no inglese, só portuguese. POR-TU-GUÊS". Oi?? Oi? E, nisso, a outra pessoa acaba desistindo e vai embora...
Dúzias de risadas depois, descobri que o restaurante tinha, sim, mesinhas e cadeiras, no próximo vagão. Vêm, meninas, vamos sentar ali!! Mas veio também o mocinho gorducho-garçon, pra variar com má notícia: ragazze, com mala aqui não pode. Oi? Não era aqui? A gente pensou, mas não disse. Ah, mas, moço, aconteceu isso, isso e isso. Tá bom, ragazze, então vão ali pra primeira classe e qualquer coisa eu explico pro carabinieri. Ciao, americana bobona... fica aí na sua cadeirinha. Primeira classe, vazia: quem disse que europeu é rico e chique? Enfim, ficamos lá mesmo e não aconteceu nada.
A Laura-Pausini-bilheteira passou por nós duas vezes, olhou com o típico olhar rude-grosso dos italianos, e foi embora, acho que cantando "Marco se n'è andato e non ritorna più...".
Finalmente: Veneza.
TÁ BOM, VAMOS PRA CROÁCIA!
Fomos direto pra fila dos bilhetes porque as meninas iam pra Croácia no fim do dia, passar o fim de semana, e já queriam comprar a passagem. A viagem era durante a noite toda. E eu ia comprar meu bilhete de volta pra Firenze. Quê? Adivinha o que elas me convenceram a fazer... sim, também comprei passagem pra Croácia. Se eu estava preparada? Não exatamente. Mas quem liga?
TUDO é muito caro. Comprei só máscaras, e olhe lá! Mas tive vontade de comprar todas, todas, todas as máscaras de todas as lojas de Veneza. E pronto, dei por visto.
IO, MIO MARITO E DUE CANI
Onze e meia da noite e lá vão as três patetas pro trem com destino à Croácia. Precisa validar! Precisa validar! A Aline depois de uma taça de vinho fica realmente engraçada e obcecada por validar o bilhete do trem. Pois é, não basta comprar, precisa validar. Se você não valida, paga 5o euros de multa. E é nesse momento que entra também o "oi?? não era aqui??". Mas a gente validou, obviamente, enquanto a são-paulina gritava. E ria.
(no fundo, eu estava me divertindo. queria mudar de lugar, é verdade, mas não fiquei nem um pouco mal-humorada quando vi que não dava mesmo pra mudar, como ficaria tempos atrás. eu estava ótima. foi tudo bem, no fim das contas.)
Aline e eu estávamos bem engraçadas e ficamos divertindo a cabine por alguns minutos, até ela capotar e dormir. Aliás, tô pra conhecer alguém que dorme com tanta facilidade. Você pisca e a nega dormiu. A Luíza, embora jurasse que tinha perdido o sono e que me faria companhia, também dormiu depois de oito minutos. Eu fiquei arrumando o cubículo, consertando as cortinihas pra tentar deixar o lugar um pouquinho mais escuro, e controlando a abertura da janela porque quando o trem andava, a janela escancarada deixava entrar um vento danado e fazia um barulho do cão. Quando o trem parava - muitas vezes! - o que era do cão era o calor. Então eu tive que abrir e fechar a madrugada toda.
Por falar em cão, não podia faltar uma bizarrice nesse trem. Lá pras duas da manhã, quando eu conseguia finalmente cochilar, depois de fazer toda a organização da suíte, mochilas e afins, alguém abre a nossa portinha de vidro, me cutuca, me desperta e me diz: "ciao, io e mio marito siamo qui in questa cabina e noi abbiamo due cani... va bene se os canes entrarem agora e deitarem aqui no chão??"!!
O QUÊ???? Dois cachorros?? Acho que eu tô sonhando. Não, não tô. Mas, moça, você não está entendendo... Olha o tamanho disso aqui! Nem tem lugar no chão porque ele está coberto com nossas mochilas, sapatos e coisas. Como vai meter dois cães aqui?? E ainda por cima, cane fede... nesse calor, imagina! Ah, e tem mais um detalhezinho: estamos aqui em CINCO! Tem só UM sofazinho sobrando... (abarrotado de coisas em cima dele). Como mesmo você e seu marido imaginam ocupar esse micro-sofá juntos????
Não, aquilo de-fi-ni-ti-va-men-te era um engano. E era. A mocinha estava na carroça errada. Isso mesmo: carroça. É vagão em italiano. E principalmente o lugar onde estávamos era, sem sombra de dúvida, uma carroça.
YÚLHÁNA - BRADZILHÁNA
O episódio dos canes foi surreal. Mas tentei esquecer e voltar pro meu delicioso cochilo no vagão-favela da carroça.
O soninho merecido durou menos de uma hora. Porque aí chegamos na Slovênia e lá vieram os policias para checar passaportes e caras amassadas de gente que dormia. Os policiais slovenos pareciam da máfia. Eu me senti uma bandida. Principalmente quando o poderoso chefão passou horas com meu passaporte na mão falando meu nome por um microfoninho. Yúlhána... Yúlhána... Bradzilhána. E ele só fez isso comigo. O que eu fiz? A idade? Acho que não. O sobrenome árabe, provavelmente. Só pode ser. Porque na volta aconteceu a mesma coisa. E só comigo de novo. Os passaportes das meninas, eles olhavam, carimbavam e ciao.
E a coisa se repetiu por três ou quatro vezes. O trem parava, entrava a tropa de choque, acordavam a gente sem dó, pediam os passaportes, faziam cara feia e saíam pisando firme. Até chegarmos em Zagreb, na Croácia, lá pras seis da matina - com duas horas de atraso, de tanto que o trem parou no caminho. E fazia frio, muito frio. Quem tinha blusa, meia, cachecol? Você tinha? Nós não.
CRACÓVIAS E CRACOVENCES
Trocamos Euros por Kunas - dinheiros que a Luíza e nós chamamos de Cracóvias. Sim, porque a gente conseguia lembrar da palavra Cracóvia, mas não lembrava Kuna de jeito nenhum! E o lugar também chamávamos de Cracóvia porque Croácia às vezes não vinha na cabeça. Então Cracóvias est. E cada Cracóvia gasta valia uns minutos de risada. Olha, nenhum dinheiro do mundo paga o tanto que rimos nesses dois dias.
Mas as pessoas da Cracóvia, digo, da Croácia, é que são o grande negócio do lugar. Que gente gentil, meu Deus! Que gente gentil! Nem sempre falam inglês direito. Muitos falam italiano, pelo menos um pouco. Todos com quem cruzamos foram incrivelmente simpáticos.
Tivemos a sorte de ter uma amiga croata passeando com a gente, a Natalja - o J se diz I. Fomos aos lugares importantes, a uma feira de antiguidades onde o mocinho que vendia livros me deu um novo testamento em croata (?), comemos comida típica, comemos bem, e muito, e fomos até a um jogo de futebol com a são paulina roxa gritando DYNAMO!.
TREM-FANTASMA
E quem disse que a volta seria tranquila?
Sentada eu já sabia que seria, mas... vai vendo.
Nossas poltronas estavam lá. Ocupadas, mas as pessoas se levantaram pra gente sentar. A sensação é horrível. De fazer alguém levantar pra você sentar. Ainda mais porque aquela pessoa já vinha viajando naquele horror havia pelo menos cinco horas e tinha mais sete pela frente. Ah, e omelhor de tudo: estávamos no vagão onde as pessoas podiam ir ali no corredor bem do nosso lado e fumar!!! Não é inacreditável?? São só cerca de 20 lugares do lado de onde se pode fumar e NOSSAS POLTRONAS ERAM EXATAMENTE ALI.
Sim, eu pensei que estava na pegadinha do Faustão. Mas, não.
Chegando na Itália, eles fizeram um escândalo. Certo. Veio a polícia italiana, deu um jeito de abrir o vagão trancado e foi lá ver o que estava acontecendo. Voltou dizendo que o povo que estava na cabine deles tinha bilhetes, mas parecia estranho. Fariam a checagem completa em Veneza. Mas o melhor foi que esses albaneses, romenos, seja o que for, se faziam de idiotas com os policiais e diziam que não estavam entendendo... quer dizer: "oi, não era aqui?"!!
Em resumo, não preguei o olho a noite inteira: passei sete horas ouvindo frases em italiano que só entendia pela metade... sobre o Festival de música de Budapeste, sobre filmes italianos, sobre Berlusconi e sobre as Olimpíadas na China. E o moço ainda falava em dialeto de Veneza! Eu não merecia.
Enfim, tudo tudo tudo pode acontecer nos trens da Europa. Principalmente entre esses países meio "novos" na comunidade. Também acabou a luz no meio do viagem. A máfia entrou revistando olhando feio. Meu nome, como eu já disse, foi repetido dúzias de vezes no foninho da Swat. E um casal de portugueses que viajava sem lugar contou que um outro trem que pegaram se soltou da locomotiva... É, assim mesmo. O primeiro vagão, o que puxa, soltou eles no meio do nada. Não se sabe como. E eles ficaram ali, largados no nada por horas. Até que chegou outro, pegou eles e pronto. Ficou por isso mesmo. Ninguém explicou nada. Niente.
A Cróacia foi o recheio de um sanduíche com pão estranho...
Mas é interessante ter história pra contar. (Medo.)
FOTOS DE ZAGREB - CROÁCIA
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